A dúvida cartesiana não existe!

Não existe “dúvida cartesiana”.

Em Descartes, existe a dúvida, digamos, “clássica”, isto é, o estado mental do sujeito quando não encontra evidência suficiente para fundar sua certeza.

Ao longo da experiência mental apresentada nas Meditações, Descartes propõe ampliar o alcance da dúvida clássica para torná-la uma dúvida sistemática, isto é, que incidirá genericamente sobre todo um grupo de ideias uma vez encontrada razão para duvidar de ao menos um caso específico. Então se encontro uma caso em que posso duvidar dos sentidos – o tamanho do sol, por exemplo – generalizo a dúvida para todo o conhecimento produzido pelos sentidos. Deveria ser óbvio para qualquer um que tenha lido distraidamente as Meditações ao menos uma vez que essa “dúvida sistemática” só tem validade no âmbito da experiência proposta. Isto é, ela não se estabelece com método ou principio; ela tem um valor meramente transitório, local, figurativo com o fim de construir a experiência.

E por fim, há a dúvida hiperbólica, que de dúvida não tem nada: trata-se de um estado de completa negação. Mais uma vez, uma leitura apenas apegada à literalidade do texto não deixaria margem de dúvida.

Tornar hiperbólica a dúvida sistemática significa simplesmente duvidar antecipadamente (aprioristicamente) de qualquer ideia seja qual for sua origem porque a questão agora não é mais cognitiva, mas ontológica: e se a relação cognitiva entre a mente e o mundo for de tal modo que “a coisa em si” me seja inacessível? Isto é, e se o conhecimento se der tal qual o pensou Kant? Bem, nesse caso, não valeria a pena pensar – ao menos não seriamente – a menos, claro, se você for alemão. ou um filosofo analítico.

Claro, Descartes poderia ter começado sua experimento mental pela negação. Mas a intensificação da dúvida até transformá-la em negação cumpre o efeito dramático necessário para não reduzir o uma experiência metafísica num mero exercício de lógica.

Também não existe círculo cartesiano porque essa experiência se constrói sob a ação da noluntade, o modo, digamos, negativo da vontade. Em São Tomás a vontade se exerce sob dois modos: a vontade, como vontade de querer o bem; e a noluntade, como vontade de não querer o mal. Ora, admitir a hipótese de que todas as minhas ideias são falsas por força da ação de um gênio maligno é admitir que tudo é mal. Não há portanto bem a desejar.

Logo resta à mente exercer sua noluntade – o que nesse caso significa não permitir que nenhuma ideia dure o suficiente para se pretender verdadeira ou correspondente a algo. Trata-se de produzir um estado mental muito especifico: uma pura duração vazia de conteúdo (para usar uma expressão kantiana). Vazia de conteúdo representativo singular, ressalte-se. Porque seu conteúdo é escuridão e silêncio.

Claro, o experimento requer preferencialmente um ambiente de escuridão e silêncio onde o meditador possa exercer à plenitude sua noluntade. E essa coincidência entre sensação e pensamento não será trivial: ela reforça a ação da noluntade. Se todo pensamento é pensamento de algo (para usar uma expressão da fenomenologia) pensar a escuridão e o silêncio é pensar algo; e pensá-lo num ambiente escuro e silencioso será certamente uma ideia (representativa!) irrefutável.

Como paradoxalmente uma certa filosofia insular parece resistir a experiências desse tipo, podemos reduzi-la a termos logico-matemáticos: na “dúvida hiperbólica” o que se pretende conceber é um conjunto vazio e dele extrair todas as suas consequências.

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