Bento Prado e o senso comum

“É perfeitamente possível, portanto, descrever a perspectiva do senso comum, sem recorrer às ideias de dogmatismo ou de ingenuidade.

Podemos perfeitamente entender a operação de uma filosofia do senso comum como paralela àquela posta em prática – dando mais uma referência externa à filosofia do senso comum – por Aristóteles,ao devolver à episteme sua plena autonomia em relação a um saber absoluto ou an-hipotético.

Recusar a discussão da existência do mundo e recusar, como o Aristóteles da Física, a discussão da existência do movimento, são operações semelhantes: assim como na Física, o senso comum não tem por que dar conta de seus pressupostos a uma instância supostamente anterior ou superior. Num caso como no outro, poderíamos dizer com Pascal, que “esta falta de provas não é um defeito, mas uma perfeição”.

Mais do que isso, parece perfeitamente aceitável a tese de que a”ingenuidade” do senso comum é, em última análise, uma “invenção”da própria Filosofia, sem qualquer fundamento no corpo da vida cotidiana.”

Bento Prado Junior, A Filosofia e a Visão Comum de Mundo.


A expressão “filosofia do senso comum” é uma contradição de termos. O senso comum se estabelece fundado na repetição dos efeitos sem interrogar-se sobre as causas. E assim se estabelece mais ou menos como uma “tradicão supersticiosa”.

Chá de alho é bom para gripe, um galho de arruda limpa a casa das energias negativas, figuinhas de arruda e guiné protegem os bebês contra o mau olhado são exemplos extremos de um conhecimento obtido por indução, na base do acerto-e-erro, sem margem para explicações ou contestações: é assim porque é assim ou porque assim é melhor ou porque é assim que funciona.


Coisa muito diferente é uma filosofia que parte da experiência singular e sensorial para daí extrair regularidades e conceitos mais gerais. Uma filosofia que avança em compasso com aquilo que chamamos de ciência e se estabelece como epistemologia, metafisica, logica.


É preciso não confundir “filosofia do senso comum” com “filosofia baseada em autoevidências” – para usar um jog ode palavras que não se pretende isento de ironia.

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